terça-feira, 9 de setembro de 2008

o que há

what's up, duck?...



o que há em mim é sobretudo cansaço

não disto nem daquilo,

nem sequer de tudo ou de nada:

cansaço assim mesmo, ele mesmo,

cansaço.


a sutileza das sensações inúteis,

as paixões violentas por coisa nenhuma,

os amores intensos por o suposto em alguém,

essas coisas todas ?


essas e o que falta nelas eternamente;

tudo isso faz um cansaço,

este cansaço,

cansaço.


há sem dúvida quem ame o infinito,

há sem dúvida quem deseje o impossível,

há sem dúvida quem não queira nada?


três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:

porque eu amo infinitamente o finito,

porque eu desejo impossivelmente o possível,

porque quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,

ou até se não puder ser…


e o resultado?

para eles a vida vivida ou sonhada,

para eles o sonho sonhado ou vivido,

para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto…


para mim só um grande, um profundo,

e, ah com que felicidade infecundo, cansaço,

um supremíssimo cansaço,

íssimo, íssimo, íssimo,

cansaço…


Álvaro de Campos, 09-10-1934

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