sexta-feira, 6 de junho de 2008

pequenos prazeres


Não sei porque sorri de repente.
É um gosto de estrela me veio à boca...

Mario Quintana

quarta-feira, 4 de junho de 2008

natureza viva


[...] Ah: fumarás demais, beberás em excesso, aborrecerás todos os amigos com tuas histórias desesperadas, noites e noites a fio permanecerás insone, a fantasia desenfreada e o sexo em brasa, dormirás dias adentro, faltarás ao trabalho, escreverás cartas que não serão nunca enviadas, consultarás búzios, números, cartas e astros, pensarás em fugas e suicídios em cada minuto de cada novo dia, chorarás desamparado atravessando madrugadas em tua cama vazia, não conseguirás sorrir nem caminhar alheio pelas ruas sem descobrires em algum jeito alheio o jeito exato dele, em algum cheiro o cheiro preciso dele. Que não suspeitará de tua perdição, mergulhado como agora, a teu lado, na contemplação dessa paisagem interna onde não sabes sequer que lugar ocupas, e nem mesmo estás. [...]

Caio Fernando Abreu, Morangos Mofados, 1982

essas coisas


"você não está mais na idade
de sofrer por essas coisas".

há então a idade de sofrer
e a de não sofrer mais
por essas, essas coisas?
as coisas só deviam acontecer
para fazer sofrer
na idade própria de sofrer?

ou não se devia sofrer
pelas coisas que causam sofrimento
pois vieram na hora errada, e a hora é calma?

e se não estou mais na idade de sofrer
é porque estou morto, e morto
é a idade de não sentir as coisas, essas coisas?

Carlos Drummond de Andrade, As impurezas do branco, 1973

I am alone now, with my thoughts...


tenho tanto sentimento

tenho tanto sentimento
que é freqüente persuadir-me
de que sou sentimental,
mas reconheço, ao medir-me,
que tudo isso é pensamento,
que não senti afinal.

temos, todos que vivemos,
uma vida que é vivida
e outra vida que é pensada,
e a única vida que temos
é essa que é dividida
entre a verdadeira e a errada.

qual porém é a verdadeira
qual errada, ninguém
nos saberá explicar;
e vivemos de maneira
que a vida que a gente tem
é a que tem que pensar.

autopsicografia

o poeta é um fingidor.
finge tão completamente
que chega a fingir que é dor
a dor que deveras sente.

e os que lêem o que escreve,
na dor lida sentem bem,
não as duas que ele teve,
mas só a que eles não têm.

e assim nas calhas de roda
gira, a entreter a razão,
esse comboio de corda
que se chama coração.

Fernando Pessoa, Cancioneiro, 1933