domingo, 10 de janeiro de 2010

décadence avec élégance



Parece-me que a invisibilidade é a condição para a elegância.
A elegância acaba se for notada.

(Jean Cocteau, 'Visão Invisível')



Elegância é tudo aquilo que é belo, seja no direito seja no avesso.

(Gabrielle ‘Coco’ Chanel)

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

a um gato

a todos os gatos: pardos, furta-cores...



não são mais silenciosos os espelhos
nem mais furtiva a aurora aventureira;
tu és, sob a lua, essa pantera,
que divisam ao longe nossos olhos.
por obra indecifrável de um decreto
divino, buscamos-te inutilmente;
mais remoto que o Ganges e o poente,
tua é a solidão, teu o segredo.
teu dorso condescende à morosa
carícia de minha mão. Sem um ruído,
da eternidade que ora é olvido,
aceitaste o amor dessa mão receosa.
em outro tempo estás. Tu és o dono
de um espaço cerrado como um sonho.

(Jorge Luis Borges, O Ouro dos Tigres)

sábado, 21 de novembro de 2009

keep walking

de novo, caio... e Caio


Vai passar, tu sabes que vai passar. Talvez não amanhã, mas dentro de uma semana, um mês ou dois, quem sabe? O verão está ai, haverá sol quase todos os dias, e sempre resta essa coisa chamada "impulso vital". Pois esse impulso às vezes cruel, porque não permite que nenhuma dor insista por muito tempo, te empurrará quem sabe para o sol, para o mar, para uma nova estrada qualquer e, de repente, no meio de uma frase ou de um movimento te supreenderás pensando algo como "estou contente outra vez". Ou simplesmente "continuo", porque já não temos mais idade para, dramaticamente, usarmos palavras grandiloqüentes como "sempre" ou "nunca". Ninguém sabe como, mas aos poucos fomos aprendendo sobre a continuidade da vida, das pessoas e das coisas. Já não tentamos o suicídio nem cometemos gestos tresloucados. Alguns, sim - nós, não. Contidamente, continuamos. E substituimos expressões fatais como "não resistirei" por outras mais mansas, como "sei que vai passar". Esse o nosso jeito de continuar, o mais eficiente e também o mais cômodo, porque não implica em decisões, apenas em paciência.

Caio Fernando Abreu (Caio 3D O Essencial da década de 1980)

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

canção de garoa

em cima do meu telhado
pirulin lulin lulin,
um anjo, todo molhado,

soluça no seu flautim.

o relógio vai bater:
as molas rangem sem fim.
o retrato na parede
fica olhando para mim.

e chove sem saber por quê...
e tudo foi sempre assim!
parece que vou sofrer:
pirulin lulin lulin

(Mario Quintana, Nariz de vidro)